Geldermalsen é uma vila no centro dos Países Baixos. Cresci ali com as estações bem definidas, os invernos longos e cinzentos, e uma cultura de organização e discrição. A vida era previsível no melhor sentido da palavra: rotinas claras, espaços bem definidos, uma certa contenção emocional que eu interpretava como normalidade.

Durante anos trabalhei em contextos que exigiam muitas horas em frente a ecrãs. Relatórios, reuniões online, documentos. O telemóvel era uma extensão da mão. As pausas eram raramente pausas reais — eram apenas mudanças de aplicação. Não me queixava. Parecia-me o preço normal de uma vida adulta e funcional.

A decisão de mudar de país

A ideia de Portugal não nasceu de um plano grandioso. Nasceu de uma combinação de factores: a vontade de experimentar outra luz, outro ritmo, outra relação com o espaço exterior. Visitei o país algumas vezes e notei que, mesmo em dias de trabalho, as pessoas pareciam ocupar o espaço público de forma diferente. Havia mais tempo na rua. Mais conversas à porta. Mais luz.

Quando a oportunidade de me mudar se apresentou, aceitei. Não foi um salto no escuro completo — preparei-me, organizei documentos, arrumei a casa. Mas também não foi uma decisão calculada ao milímetro. Havia espaço para o desconhecido, e isso, na altura, pareceu-me necessário.

O que a luz fez

Os primeiros meses em Portugal foram de observação constante. A luz era diferente. Entrava pelas janelas de forma mais generosa. As manhãs tinham outra qualidade. Mesmo nos dias nublados havia uma luminosidade que nos Países Baixos de inverno eu raramente experimentava.

Esta diferença física teve consequências psicológicas subtis. Comecei a abrir as cortinas mais cedo. Comecei a trabalhar junto à janela. Comecei a sair à rua sem destino definido, apenas para sentir o ar. Nenhuma destas acções foi planeada como “hábito de bem-estar”. Foram respostas naturais a um ambiente que convidava a isso.

Mudar de lugar não muda automaticamente a pessoa. Mas muda as condições em que a pessoa se move — e isso, com o tempo, pode mudar muita coisa.

Os hábitos que surgiram sem esforço forçado

Com o tempo, alguns gestos tornaram-se recorrentes. As pausas durante o trabalho em frente ao ecrã. A preferência por sair sem o telemóvel. A redução gradual da luz e dos ecrãs no final do dia. A curiosidade por alimentos diferentes no mercado.

Nenhum destes hábitos nasceu de um livro de auto-ajuda ou de um desafio de 30 dias. Nasceram da observação e da experimentação. Alguns falharam. Outros ficaram. Os que ficaram foram aqueles que se encaixavam no meu ritmo real, não no ritmo idealizado que eu achava que “devia” ter.

Também aprendi a aceitar a irregularidade. Há semanas em que tudo flui. Há outras em que o telemóvel volta a ocupar demasiado espaço e as pausas são esquecidas. A diferença em relação ao passado é que agora me apercebo disso mais cedo e consigo voltar ao padrão com menos drama.

Porquê escrever

Este site existe porque me apercebi de que escrever sobre estas coisas me ajuda a mantê-las vivas. Quando descrevo um hábito, ele ganha contornos mais claros. Quando partilho uma dificuldade, ela deixa de ser apenas um fracasso privado e passa a ser material de reflexão.

Também escrevo porque gosto da ideia de que alguém, noutro lugar, possa ler estas linhas e sentir-se menos sozinho na tentativa de viver com um pouco mais de presença. Não ofereço soluções universais. Ofereço apenas o registo de uma tentativa — a minha.

O que este espaço não é

Limetera não é um site de conselhos profissionais. Não é um espaço de promessas. Não é um manifesto. É o caderno aberto de uma pessoa que se mudou de país, que continua a trabalhar com ecrãs, que continua a ter dias melhores e piores, e que tenta, com alguma consistência, prestar atenção às pequenas coisas que fazem o dia sentir-se diferente.

Se alguma coisa do que escrevo te ressoar, fico contente. Se quiseres partilhar a tua própria experiência, a página de contacto está aberta. E se nada disto fizer sentido para ti, também está tudo bem. Cada pessoa encontra o seu próprio ritmo.

Obrigada por teres lido até aqui.

— Susanne Boer